domingo, 24 de novembro de 2019

Uma iniciativa do Bloco de Esquerda

Pelo seu Grupo Parlamentar, a quem agradecemos a amabilidade de ter informado, aqui ficando o texto integral. Os Partidos contam!




PROJETO DE RESOLUÇÃO Nº 46/XIV/4ª
RECOMENDA A SUSPENSÃO DAS DRAGAGENS NO PORTO DE SETÚBAL
Como é do conhecimento público, a Administração do Porto de Setúbal e Sesimbra, S.A. (APSS), apresentou e viu aprovado um projeto de melhoria da acessibilidade marítima ao Porto de Setúbal.
O justificativo de toda a obra é adaptar o acesso marítimo aos terminais do Porto de Setúbal à evolução da procura de tráfego contentorizado esperado no futuro e visa concretizar o previsto no Projeto de Construção do Terminal de Contentores/Plataforma Multimodal.
O projeto contempla um conjunto de dragagens que oferecerá possibilidade de acesso, numa 1ª fase (Fase A), aos navios do tráfego Short - Sea/Panamax de tipo Under-Panamax de 3000-4000 TEU até 12m de calado, e numa 2ª fase (B) do tipo Panamax de 4.000-6.000 TEU com calados até 13m.
Do conjunto destas duas fases A e B, está previsto um total de sedimentos dragados de mais de 6.300m3. Não existe conhecimento científico que possa assegurar que esta intervenção não provoque um desastre natural e ambiental de consequências devastadoras e irreversíveis em área da Reserva Natural do Estuário do Sado, que tem proteção legal conferida através do Decreto-Lei nº 430/80, que a criou, mas que está igualmente classificada a nível europeu como Zona de Proteção Especial para as Aves (PTZPE0011 - Estuário do Sado) ao abrigo da Diretiva Aves e como PTCON0011 - Sítio Estuário do Sado ao abrigo da Diretiva 92/43/CEE ao abrigo da Diretiva Habitats. É ainda um Sítio Ramsar, ao abrigo da Convenção de Ramsar, como Área Importante para as Aves Europeias e é um Biótopo CORINE (C14100013) ao abrigo do programa CORINE 85/338/CEE.
O estuário é também local de nidificação para numerosas aves (cerca de 220 espécies) e acolhe uma população de roazes-corvineiros, sendo esta a única população residente de cetáceos que em Portugal utiliza um estuário como área de alimentação e reprodução, revelando-se assim de uma inegável importância ictiológica, servindo de maternidade para várias espécies de peixes e outras espécies marítima.
Durante 7 anos, uma equipa de biólogos estudou as zonas marinhas que na costa portuguesa deveriam ser classificadas como Rede Natura 2000. Um dos principais objetivos era a proteção de cetáceos, nomeadamente golfinhos.
Apesar de em 2016 ter sido realizada a discussão pública da proposta resultante do estudo, nunca existiu uma decisão definitiva. Só em agosto, do passado ano ocorreu nova discussão pública, desta feita para definir os planos de gestão que definem como serão mantidos os valores naturais das zonas, nomeadamente recifes e bancos de areia. No entanto, das 4 zonas propostas para proteção, apenas avançaram duas delas. As duas zonas que colidem de forma evidente com as dragagens da entrada do Rio Sado - para que o Porto de Setúbal receba navios de maior dimensão, ficaram de fora da proposta.
A exclusão das duas áreas referidas não serve os objetivos de conservação da natureza a que o governo está vinculado. Retirar duas áreas de conservação por conflituarem com as dragagens do porto de Setúbal não é aceitável, dado que o trabalho de 7 anos as identificou como áreas a proteger.
O Rio Sado, o seu estuário e toda a sua envolvente, representa um património de todos e para todos, quer pela relação umbilical com as populações que dele usufruem quer pela sua diversidade ambiental, ecológica, económica e social. Não pode ser visto como algo abstrato e mero instrumento de interesses económicos especulativos privados, em desfavor dos interesses públicos, regionais e nacionais. A preservação do ativo natural constituído pelo Rio e Estuário do Sado, pela Serra da Arrábida e pela Península de Troia são, incontornavelmente, e em rigor, um imperativo nacional.
Neste quadro, o Bloco de Esquerda realça as contribuições positivas e as iniciativas que vários grupos de cidadãos e organizações vêm trazendo ao conhecimento da comunidade, alertando-a e esclarecendo-a.
Face ao exposto e considerando que a Sustentabilidade Ambiental e as Pessoas estão primeiro, que a Preservação do Ambiente e dos Ativos Naturais deve ser a principal causa Humana, e que as dragagens ainda não tiveram o seu início, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, entende a necessidade de o Parlamento dirigir uma recomendação ao Governo no sentido da suspensão imediata deste processo de forma a garantir um maior esclarecimento e apuro das necessidades deste projeto, sua dimensão, período de intervenção e impactos ambientais, económicos e sociais na região. O Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, apresenta, assim, o seguinte projeto de Resolução:
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Assembleia da República recomenda ao Governo a suspensão do processo relativo às dragagens do Sado, da responsabilidade da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, assegurando complementarmente formas de um maior esclarecimento e apuramento das necessidades deste projeto, sua dimensão, período de intervenção e impactos ambientais, económicos e sociais na região.
Assembleia da República, 08 de novembro de 2019.
As Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda,

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Uma iniciativa do PAN



A quem agradecemos a amabilidade de ter informado. Os Partidos contam!


"Ainda esta semana apresentámos mais uma iniciativa para travar as dragagens: https://www.ambientemagazine.com/pan-pede-revogacao-da-autorizacao-para-as-dragagens-no-sado/?fbclid=IwAR3rKSBowVvg42bnRSSBPMrhTM_5J_g1vnsd6-49vkWOdh-QJIKOSeYq4hU
https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=44032"

Aqui fica o texto integral:



Projecto de Resolução n.º 33/XIV/1ª
 
Recomenda ao Governo que revogue a autorização concedida à Administração do Porto de Setúbal para avançar com as dragagens no Sado
 
O Projecto de Melhoria da Acessibilidade Marítima ao Porto de Setúbal, refere-se à intervenção que a Administração do Porto de Setúbal e Sesimbra (APSS) pretende proceder no leito do rio Sado, com o sentido de melhorar a competitividade do Porto, aumentando a sua capacidade de receber contentores (TEU).
Para aprofundar as cotas de serviço dos canais e bacia de rotação, serão efectuadas dragagens nos bancos de areia existentes no rio Sado, correspondendo à movimentação de 6 500 000 m3 de areia.
Ao contrário do que APSS e a anterior Ministra do Mar tentaram demonstrar, estas dragagens não têm qualquer precedente e não se assemelham às dragagens de manutenção que o canal sofre regularmente. Entre 2010 e 2015 foram removidos 680 523 m3 de sedimentos, sendo que só na fase A deste projecto serão removidos 3 467 518 m3, ou seja, 5 vezes mais sedimentos do que foi retirado em 5 anos. Na totalidade, serão removidos 9 vezes mais sedimentos do canal do que se removeu entre 2010 e 2015 nas dragagens de manutenção.
É importante referir que localização destas dragagens se encontra na imediação da Reserva Natural do Estuário do Sado e do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha, zonas estas protegidas pelas Directivas Comunitárias Habitats (Directiva 92/43/CEE) e Aves (Directiva 79/409/CEE).
A área a intervencionar encontra-se dentro do plano de extensão da protecção do Estuário do Sado, que se encontra em fase de aprovação há 7 anos[1].
Não é invulgar a inércia do Governo Português na classificação e protecção de áreas protegidas pelas directivas, por isso a Comissão Europeia, em Abril de 2018,  intentou uma acção no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) [2] a qual veio a ser considerada procedente e no dia 5 de Setembro. O TJUE  declarou que Portugal não cumpriu as obrigações exigidas na Directiva Habitats, nomeadamente a designação dos SIC em causa como ZEC e falha na implementação de medidas de conservação, referindo que as medidas que Portugal apresentou são genéricas e têm carácter apenas orientador e que “não satisfazem as exigências ecológicas de cada espécie e de cada tipo de habitat presente em cada SIC em causa.”
Este projecto foi alvo de Avaliação de Impacto Ambiental, que teve parecer favorável condicionado, apesar de apresentar inúmeras lacunas e medidas mitigadoras insuficientes.
Dentro dos principais impactos referidos no Estudo de Impacto Ambiental, são expectáveis impactos negativos nas pradarias marinhas (habitat 1320 e 1410), zonas de sapal (1130) e vasa adjacentes à área de implantação do projecto, sendo que serão afectadas pela deposição de sedimentos em suspensão e poderão ainda ser afectadas pelo aumento da turbidez da água.
No que diz respeito aos invertebrados marinhos, a comunidade bentónica será a mais afectada no decorrer da sucção, transporte e deposição dos dragados, podendo-se verificar elevadas taxas de mortalidade por asfixia, choque mecânico ou compactação na sequência da deposição dos sedimentos.
Revela ainda que, os cefalópodes mostram danos fisiológicos permanentes como consequência de exposição permanente de ruído de baixa frequência, o que pode ser problemático para a espécies protegidas dos golfinhos-roazes que se alimentam dos mesmos. Relativamente às medidas de mitigação, o EIA refere que não existem medidas de minimização para este impacto.
Os impactos negativos na ictiofauna refere principalmente a possibilidade de se registar uma mortalidade significativa nas larvas e juvenis de peixes, durante as operações da dragagem.  Ainda, referem que as espécies Dasyatis pastinaca, Mustelus mustelus e Myliobatis aquila que encontram estatuto vulnerável e Raja clavata (espécie ameaçada e em declínio na Convenção OSPAR) ocorrem na região, principalmente na zona de deposição na base do delta.
Também, o ruido subaquático gerado pelas embarcações, pelos motores de sucção e pela deposição das dragas e a perturbação mecânica e turbidez na coluna de água causadas pela dragagem e pelo assentamento dos sedimentos, encontram-se entre os impactos mais significativos para a conservação da natureza, incidindo principalmente na comunidade residente de golfinhos-roazes, esperando-se alterações comportamentais de curto-prazo e efeitos de mudanças na disponibilidade local de presas.
A presença de três dragas por vários meses irá representar uma alteração ambiental significativa para estes mamíferos, sendo que numa zona semelhante na Escócia, as operações de dragagem provocaram alteração de comportamento, abandonando a zona onde habitavam.
Existem graves lacunas técnicas de conhecimento, tal como é demonstrado no capítulo 11 do EIA, referindo que o “modo de execução da obra e o tipo de equipamento a utilizar, bem como por se tratar de uma intervenção num sistema natural sobre o qual ainda dispomos de informação limitada e insuficiente”. Ainda refere que era importante a “existência de um conhecimento detalhado sobre os povoamentos biológicos em grande parte dos locais a intervencionar e a sua importância para a alimentação dos golfinhos-roazes”.
Também é revelado que não possuem informação do nível de ruído que será gerado quer na fase da construção como na fase de exploração, pelo que não têm conhecimento real do impacto nas comunidades residentes do estuário do sado.
O relatório da Comissão de Avaliação determina ainda que “no que diz respeito ao fator geologia e geomorfologia, a magnitude dos impactes que esta obra provocará encontram-se subavaliados” e que uma “análise mais global permite concluir que o EIA não confere um grau de magnitude e significância adequado aos impactes negativos, subestimando-os e que não atribui o devido impacte negativo à ampliação do Terminal Ro-Ro.
Para além dos efeitos directos nas zonas protegidas já referidas, não foi considerado no EIA o impacto do tráfego rodoviário nas zonas envolventes, devido à contribuição da movimentação de contentores no porto, pelo que a CA determina que os níveis de ruído indicados “poderão estar subestimados”.
Não foi apresentado um Estudo de Tráfego pelo que, segundo o IMTT “não é possível avaliar o impacto do aumento do tráfego rodoviário que resultará da implementação do projeto em análise, na Rede Rodoviária Nacional, o qual poderá eventualmente, motivar a necessidade de intervir na rede.” Refere ainda a “ausência de uma componente relativa a eventuais necessidades de medidas de adaptação aos efeitos das alterações climáticas.”
 
Acresce que no decorrer das obras preparatórias a este projecto, foi removida a zona submersa do afloramento arenítico “Pedra Furada” que se encontra classificado como geomonumento com mais de 2 milhões de anos, apesar desta não constar no EIA, e nunca ser referido em qualquer fase do processo AIA, não existindo portanto parecer da Direcção Geral do Património Cultural sobre esta remoção.
Este projecto tem sido caracterizado por falta de transparência, numa tentativa da APSS de minimizar os reais impactos deste projecto perante a opinião pública. Não se compreende a aprovação do EIA, apesar de todas as lacunas que apresenta, evidenciadas no relatório da Comissão de Avaliação.[3]
A empreitada autorizada comporta, pois, como se vê, um risco demasiado elevado para o Estuário, facto que motivou o recurso à justiça por parte de uma associação local e que se traduziu no provimento parcial, pelo Tribunal Central Administrativo do Sul, do recurso por aquela apresentado, o qual remeteu para a primeira instância a apreciação do pedido de suspensão da empreitada.
Desde então várias associações locais, piscatórias e turísticas têm vindo a manifestar-se publicamente em várias manifestações contra esta intervenção, não aceitando a destruição que este projecto irá provocar no meio natural, no turismo e na actividade piscatória.
Dado que alguns dos impactos poderão ser irreversíveis, como alta mortalidade de ictiofauna que consequentemente irá ter efeitos imprevisíveis nas comunidades de mamíferos marinhos e avifauna do estuário do sado, não se acredita que haja medidas de mitigação que possam minimizar estes efeitos, frisando ainda que segundo o EIA existe falta de conhecimento técnico acerca dos impactos que este projecto possa ter no ecossistema adjacente (Estuário do Sado).
Assim, a Assembleia da República, nos termos do n.º 5 do art. 166.º da Constituição, por intermédio do presente Projecto de Resolução, recomenda ao Governo que revogue, sem mais, a autorização concedida à Administração do Porto de Setúbal para avançar com dragagens no Sado.
 
 
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 7 de Novembro de 2019
 
As deputadas e o deputado,
 
André Silva
Bebiana Cunha
Cristina Rodrigues
Inês de Sousa Real